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Crítica | Invocação do Mal 4: O Último Ritual

 O adeus dos Warren deixa a desejar...


Dar fim a uma das maiores franquias de terror do cinema recente é uma missão quase impossível. Invocação do Mal 4: O Último Ritual se apresenta como o capítulo final da saga de Ed e Lorraine Warren, prometendo encerrar com tensão, horror e emoção a trajetória dos investigadores paranormais. O problema é que, apesar dos sustos ainda funcionarem, a história deixa um gosto amargo de oportunidade desperdiçada e isso dói ainda mais porque o caso escolhido tinha tudo para ser impactante.

O caso real é o seguinte: em 1976, Jack e Janet Smurl se mudaram para um duplex em West Pittston, na Pensilvânia. A vida foi tranquila até 1985, quando um lustre caiu e feriu uma das filhas. A partir daí, começaram os episódios que marcariam a família: gritos inexplicáveis, cheiros fortes, objetos se movendo sozinhos. O cachorro teria sido arremessado contra a parede, uma das filhas caiu da escada, e Jack alegou até ter sido agredido sexualmente por uma entidade.

Quando os Warrens chegaram à casa, afirmaram que o local estava tomado por quatro presenças: uma senhora idosa, uma jovem violenta, um homem que teria morrido no imóvel e um demônio que usava os outros três espíritos para atacar a família. Ed relatou quedas bruscas de temperatura, móveis se movendo violentamente e até uma “massa escura” se formando diante dele durante uma das tentativas de exorcismo.

Mesmo com toda a repercussão, duas tentativas de exorcismo falharam. O caso foi parar na mídia, virou livro (The Haunted: One Family’s Nightmare, de 1986) e até telefilme. A família acabou se mudando em 1987, ainda afirmando ouvir batidas e ver sombras. O peso e a fama desse caso sempre o colocaram como uma das histórias mais intrigantes associadas aos Warren.

Pois bem: no longa, quem espera fidelidade histórica vai se decepcionar. Toda a história dos Smurl é remodelada para dar centralidade aos Warren. O problema não é a liberdade criativa em si, afinal, adaptações sempre mexem nos fatos, mas sim como isso foi feito. O roteiro transforma os Smurl em coadjuvantes da própria tragédia, usando-os como pano de fundo para explorar quase exclusivamente a vida pessoal dos investigadores.

O resultado é que o peso do sofrimento da família nunca se estabelece. Há momentos de ataques paranormais intensos, mas logo depois os personagens aparecem intactos, sem marcas, como se nada tivesse acontecido. Essa escolha tira a sensação de perigo real e enfraquece o impacto do caso que, na vida real, traumatizou uma família inteira por anos.

Desde 2013, James Wan construiu não apenas uma franquia, mas uma identidade para o terror moderno: ambientes sufocantes, sustos milimetricamente planejados e uma atenção obsessiva aos detalhes. Sua ausência na direção continua sendo sentida. No comando está Michael Chaves, o mesmo de Invocação do Mal 3: A Ordem do Demônio, considerado o elo mais fraco da saga. Aqui, ele repete os erros: montagem descuidada, transições bruscas e pouco cuidado com a construção de tensão. Quando a atmosfera engata, logo é quebrada por escolhas narrativas apressadas.

Por ser o último filme, era esperado que Ed e Lorraine ganhassem destaque. O problema é que o longa praticamente transforma o caso Smurl em desculpa para falar da aposentadoria dos Warren, de reflexões sobre legado e até da trajetória da filha, Judy, desde a infância, passando pelo dom herdado da mãe, até o casamento com Tony. Para alguns fãs, pode soar como fan service nostálgico; para a história, soa como distração.

Ademais, o marketing anunciou o filme como “o caso não solucionado dos Warren”. Mas, em vez de explorar essa proposta instigante, a trama segue por um caminho mais convencional. O clímax, que deveria carregar o peso da despedida, acaba soando apressado e seguro demais, sem a ousadia que o público poderia esperar.

Apesar dos problemas, Invocação do Mal 4 consegue entregar bons momentos de horror. As cenas de suspense são bem construídas, a ambientação continua eficiente, e os sustos fazem o público pular da cadeira. Michael Chaves pode falhar na condução da história, mas quando o assunto é imersão no medo, o filme entrega.

Invocação do Mal 4: O Último Ritual não é um desastre. Tem bons momentos, segura o público na tensão e emociona quem acompanha a saga desde o início. Mas, para uma franquia que marcou tanto o terror, o último capítulo soa burocrático. Faltou ousadia, faltou dar o devido peso ao caso Smurl, faltou a mão firme de James Wan.

O medo continua, mas o legado merecia um fechamento mais memorável.

Nota: 6/10

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