Liam Neeson e Pamela Anderson lideram um retorno inesperado, hilário e cheio de respeito ao legado de Leslie Nielsen, provando que o humor escrachado ainda pode brilhar nos cinemas de hoje.
Nos anos 80 e 90, o detetive Frank Drebin, interpretado por Leslie Nielsen, redefiniu a comédia pastelão, misturando frases de efeito impagáveis e um timing cômico tão afiado quanto improvável. Três décadas depois, parecia impensável que Hollywood ousasse revisitar essa fórmula sem transformá-la em um produto pasteurizado ou em um reboot preguiçoso. Mas eis que Corra que a Polícia Vem Aí! (2025) surge como uma deliciosa surpresa: um sucessor digno, com coração, humor e uma devoção quase religiosa ao espírito original sem ser refém da nostalgia.
O diretor Akiva Schaffer compreende que o charme da franquia nunca esteve em roteiros intrincados ou tramas verossímeis, mas no exagero assumido. Aqui, a regra é clara: quanto mais improvável e sem noção, melhor. Seja numa perseguição que termina de forma completamente inesperada, numa conversa séria que de repente vira uma sequência absurda, cada momento parece um delírio cuidadosamente calculado para arrancar gargalhadas.
Liam Neeson, no papel de Frank Drebin Jr., faz exatamente o que Nielsen fazia de melhor: interpretar o absurdo com a seriedade de um Hamlet. Essa rigidez quase teatral, contrastada com a completa insanidade do que acontece ao seu redor, cria um humor involuntário delicioso. Pamela Anderson, por sua vez, brilha como parceira de tela, unindo carisma, timing afiado e uma química surpreendente com Neeson, algo que o filme explora em diálogos rápidos e olhares que dizem mais que as piadas faladas.
O roteiro não tenta reciclar piadas antigas a cada cena. Pelo contrário, há espaço para ideias próprias e frases de efeito novas que, daqui a alguns anos, certamente vão entrar na lista de citações favoritas dos fãs. Ao mesmo tempo, os easter eggs e referências estão lá para o público atento.
E o mais surpreendente: Corra que a Polícia Vem Aí! não suaviza seu humor para agradar sensibilidades contemporâneas. As piadas são propositalmente toscas, politicamente incorretas e, em alguns momentos, completamente sem noção. É um humor que parece deslocado no cinema atual, mas que funciona maravilhosamente porque não pede desculpas e porque é exatamente a essência dessa franquia.
O resultado é um filme que, apesar de não ser para todos os gostos, entrega exatamente o que promete: diversão do início ao fim, risadas altas e aquele sentimento raro de estar vendo algo que não se leva a sério, mas foi feito com muito cuidado.
Nota: 7/10
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