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Crítica | Uma Sexta Feira Mais Louca Ainda

A comédia que troca de corpo, mas não perde o coração muito menos o timing emocional.


Duas décadas depois da troca de corpos mais emblemática da cultura pop teen, Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda acerta em cheio ao trazer de volta Tess e Anna Coleman, agora lidando com dilemas de uma nova fase da vida, e com novos corpos adolescentes para habitar (porque sim, o raio cai duas vezes, e a gente adora quando o cinema brinca com isso).

Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan retomam seus papéis com uma química ainda mais afiada e uma entrega que é puro deleite para quem cresceu nos anos 2000. Curtis, aliás, está mais hilária do que nunca, provando que não importa a idade: ela domina a arte da comédia física e do timing cômico como poucas. Assistir à Jamie vivendo uma adolescente da Geração Z em pleno 2025 é uma aula de atuação e carisma. Já Lindsay surge com uma Anna amadurecida, agora mãe solo, tentando equilibrar maternidade, trabalho e um novo amor, nos conquistando com uma vulnerabilidade doce, mas firme.

O filme sabe que está lidando com um público que cresceu. Por isso, não entrega só piadas recicladas ou easter eggs. Ele se propõe a refletir sobre o que é crescer, mudar de fase, errar de novo, mas com um pouco mais de consciência. A forma como aborda a parentalidade millennial é um destaque: Anna tenta ser a mãe que não teve, tenta ouvir, dialogar, não repetir padrões. Às vezes acertando, outras errando e tudo bem, porque ser mãe, filha ou enteada continua sendo um eterno exercício de tentativa e erro.

Ao colocar duas famílias se fundindo, com filhos de relacionamentos anteriores, lutos recentes, avós intrometidas e adolescentes em crise existencial, o filme acerta ao retratar as complexidades das novas configurações familiares. Não é tudo resolvido com um abraço mágico, mas também não precisa ser um drama pesado: Sexta-Feira Mais Louca Ainda sabe transitar com leveza por conflitos reais.

O arco da Lily, em especial, é o mais tocante: uma adolescente britânica que perdeu a mãe, mudou de país e agora precisa dividir o pai com outra família. Sua relação com Eric, o pai, é linda, sensível e cheia de silêncios significativos, ainda que o roteiro pudesse ter dado mais espaço para esse enredo crescer. Já a relação entre Harper e Anna traz o velho dilema da adolescente que acha que já entendeu tudo da vida e a mãe que tenta avisar (sem sucesso) que não, minha filha, o tombo vem.

A estrutura narrativa é eficiente: intercala bem os núcleos familiares e o humor físico com momentos de emoção genuína. A troca de corpos é usada não só como piada, mas como ferramenta de empatia e crescimento pessoal, um respiro bem-vindo num mundo onde a comédia familiar muitas vezes se apoia apenas em clichês. Mas vale dizer: o ritmo do filme sofre pequenas quedas. Há momentos em que a trama parece se alongar mais do que precisa, com cenas que poderiam ser mais ágeis ou enxutas, mas nada que comprometa o todo.

Esse tipo de narrativa é quase mitológica: desde os deuses gregos que se disfarçavam de humanos até os contos budistas sobre evolução espiritual pela experiência do outro, trocar de corpo é, no fundo, uma metáfora para o que o cinema mais tenta fazer: nos colocar no lugar do outro.

E aqui, isso é feito com doçura, carisma e atualidade. O filme entende que as gerações mudaram, que a forma de ser mãe mudou, que os conflitos familiares continuam existindo, só que agora com Wi-Fi, ansiedade generalizada e uma pitada de terapia.

Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda é um reencontro afetuoso com personagens que marcaram gerações, mas também uma comédia atual sobre amadurecimento, família e empatia. É leve, engraçado, emocional na medida, e traz aquele tipo de nostalgia que aquece sem pesar. Uma produção que não se limita a “reviver o clássico”, mas atualiza a conversa com graça e sem subestimar o público.

Porque rir da própria adolescência, seja você mãe, filha, avó ou filha da madrasta, é um privilégio. E fazer isso com Jamie Lee Curtis possuída por uma Gen Z é quase terapêutico.

Nota: 8/10

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