O terror mais eficaz é aquele que penetra aos poucos, que se insinua nas rachaduras emocionais antes de escancarar os dentes. Juntos, dirigido e roteirizado por Michael Shanks e estrelado por Dave Franco ao lado de sua esposa Alison Brie, entende essa lógica. E começa bem, muito bem, aliás. A premissa é instigante: um casal em frangalhos tenta recomeçar a vida numa cidadezinha isolada, mas acaba enfrentando uma força sobrenatural que se infiltra, aos poucos, em seus corpos, mentes e afetos. Sim, temos aqui um prato cheio para o body horror, ou melhor, quase cheio.
Porque Juntos acerta no clima, na construção lenta da tensão e na dinâmica entre os protagonistas. O desconforto da convivência forçada e a codependência tóxica do casal já seriam ingredientes suficientes para um bom drama psicológico. Mas o filme quer mais: flerta com o horror corporal, com o grotesco, com a deformação do amor e do corpo. E aí, justamente quando deveria ir com tudo… recua, corta, sugere sem mostrar. E deixa a gente naquela sensação de “mas era só isso mesmo?”
As poucas cenas de horror físico que aparecem são boas, angustiantes, desconcertantes, daquele tipo que prende a respiração. Mas parecem interrompidas antes de atingirem o clímax. É como se o filme ficasse com medo de ser o que prometeu ser. A vibe está toda ali: a floresta que parece viva, os sussurros doentios no ar, os corpos que começam a reagir ao ambiente. Só falta o filme mergulhar de cabeça nesse caos biológico e sensorial. Mas ele apenas molha os pés.
Outro ponto que merece atenção é a mitologia por trás dos eventos. Ela existe, mas é tratada com tanta superficialidade que mais provoca curiosidade do que satisfaz. Nada contra mistérios e interpretações abertas, o terror funciona muitíssimo bem assim. Mas em Juntos, um pouco mais de contexto teria sido bem-vindo. Um toque a mais de explicação (sem ser didática), talvez em quinze minutos a mais de filme, poderia ter elevado tudo a outro nível.
Ainda assim, é um bom filme. Criativo, original, com um olhar autoral e boas atuações. Só fica aquela sensação incômoda de potencial desperdiçado. Porque Juntos poderia ter sido um dos grandes exemplares de terror psicológico e corporal dos últimos anos. Mas escolheu a sugestão no lugar da exposição e o incômodo no lugar do abismo. E tudo bem… só que não era esse o filme que ele parecia querer ser.
Nota: 7/10
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