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Crítica | Amores Materialistas


Celine Song retorna aos holofotes após o delicado Vidas Passadas, mas desta vez com uma proposta mais ácida, mais comercial, mais… “materialista”. Amores Materialistas parte de uma premissa instigante: e se o amor fosse um ativo? Uma troca entre duas partes com capital emocional, físico e, por que não, financeiro?

Na trama, acompanhamos Lucy (Dakota Johnson), uma casamenteira moderna que conhece de perto o mercado do amor, até porque participa dele. Ela se vê no meio de um “triângulo amoroso” entre John (Chris Evans), um velho conhecido de passado bagunçado e futuro incerto, e Harry (Pedro Pascal), um homem rico, maduro e emocionalmente disponível, o que, convenhamos, já é um combo raro hoje em dia.

Harry é o pacote completo: bonito, estável, gentil, milionário e... inacreditável. Tanto que Lucy não acredita. Ela se sente como uma “mercadoria sem dote”, e enxerga nele um unicórnio raro e inalcançável. Mas será que o problema é ele ser bom demais ou ela se sentir de menos?

Enquanto isso, John representa o oposto: alma gêmea quebrada, rotina desastrosa, uma república que cheira a mofo e sonhos de ator frustrado. E mesmo assim, o coração de Lucy ainda bate mais forte por ele. Por quê? Porque amor não se explica? Ou porque ainda estamos presos à ideia romântica de que sofrimento e instabilidade são mais “reais” do que conforto e segurança?

A crítica mais potente do filme, que infelizmente não é explorada com a profundidade que merecia, gira em torno da pergunta: o amor é sentimento ou negociação? Em um mundo onde casamento é tratado como negócio, Lucy hesita entre o que parece uma compra segura e o que soa como um investimento emocional arriscado. Os personagens falam de dotes, de IMC ideal, de mulheres que “passaram dos 30”, do relógio biológico como um fator limitante de escolha, como se fossem todos fichas técnicas no Tinder corporativo do coração.

Apesar dos temas relevantes, como o etarismo, a pressão estética, o valor do trabalho feminino e até a violência emocional disfarçada de “realismo masculino”, o filme desliza em clichês. A narrativa é superficial, os personagens não têm camadas e as frases soam mais como posts de autoajuda do que como diálogos profundos. A crítica à “teoria do amor líquido”, proposta por Zygmunt Bauman, está ali, mas diluída em uma estética polida e personagens que parecem mais peças de um catálogo do que pessoas reais.

Lucy diz que não odeia John por ser pobre, mas se odeia por isso. E essa frase resume bem o dilema central do filme: a culpa feminina por querer mais, mais conforto, mais estabilidade, mais do que um romance caótico.

No fim, o filme tenta nos vender a ideia de que o amor verdadeiro vence, mas a pergunta que fica é: a que custo? E será que sempre vale a pena pagar esse preço?

Tema excelente, mas tratado com leveza demais para a profundidade que exige.

Nota: 6/10

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