Há franquias que permanecem imóveis no tempo, repetindo fórmulas até o tédio tomar conta. E há aquelas que, mesmo em tropeços, seguem tentando. Predador pertence ao segundo grupo. E com o lançamento de Predador: Assassino de Assassinos, disponível no Disney+, testemunhamos talvez a reviravolta mais ambiciosa (e intrigante) de toda a saga iniciada em 1987.
O que era uma simples história de um alienígena caçando soldados virou, ao longo das décadas, um campo fértil para se discutir temas como ritual, honra, sobrevivência, colonialismo e agora… preservação histórica e legado bélico. Parece exagero? Pois vamos por partes.
A gênese da brutalidade em Predador (1987)
O original dirigido por John McTiernan, com Arnold Schwarzenegger no auge físico, estabeleceu o tom da franquia: um alienígena com tecnologia avançada, rastreando e matando soldados de elite em plena selva da América Central.
O diferencial aqui é que o Predador não mata por necessidade, mas caça por esporte. Ele escolhe adversários armados, observa, aprende e ataca com eficiência cirúrgica. Há um código, brutal, mas um código.
O filme mistura ação, ficção científica e horror com uma tensão crescente. O terceiro ato, em que Dutch enfrenta o alien com armadilhas tribais, é um retorno ao instinto primitivo, quase um manifesto da luta homem x natureza x tecnologia.
Expansão urbana e contexto social em Predador 2 (1990)
Com Danny Glover no papel principal e ambientado em uma Los Angeles futurista e tomada pela violência, o segundo filme amplia a mitologia. Descobrimos que os Predadores já visitaram a Terra antes. Uma cena no final mostra um troféu de crânio de Xenomorfo (de Alien), antecipando os crossovers que viriam.
O filme também introduz a ideia de caçadas em zonas urbanas, a presença do governo tentando capturar o alienígena (Peter Keyes e sua equipe), e reforça que os Yautja (nome dos Predadores na mitologia expandida) têm uma ética clara: não atacam os indefesos, como quando poupam uma policial grávida.
Apesar de menos celebrado que o primeiro, o segundo filme é crucial para entender o ethos da espécie: honra no duelo, tradição na caçada, e uma tecnologia que coexiste com a ritualização da violência.
A derrocada dos crossovers com Alien vs. Predador (2004) e Alien vs. Predador 2 (2007)
Quando o estúdio decidiu unir duas das criaturas mais icônicas da ficção científica, a intenção era boa. Mas Alien vs. Predador, dirigido por Paul W. S. Anderson, entregou mais efeitos que substância. Ambientado numa pirâmide sob o gelo da Antártida, o filme revela que os Predadores usavam os Xenomorfos como “provas de iniciação” para jovens caçadores.
A ideia é interessante, mas o roteiro é raso, os personagens fracos e a violência suavizada pelo PG-13 (e apesar da péssima qualidade, eu confesso que adoro assistir esse filme).
Já Alien vs. Predador 2 (2007) tentou corrigir isso com mais sangue, mortes brutais e escuridão (literal, porque o filme é quase impossível de assistir pela fotografia tenebrosa). A mitologia sofre: o Predalien (híbrido nascido do Xenomorfo dentro de um Predador) surge sem desenvolvimento (uma pena ou não, depende do contexto), e a narrativa ignora os dilemas morais e estratégicos da caça.
Ambos os filmes são considerados os pontos mais baixos da franquia.
Tentativas de revitalização com Predadores (2010) e O Predador (2018)
Predadores (2010), produzido por Robert Rodriguez e dirigido por Nimród Antal, leva humanos a um planeta onde servem de presas para uma tribo mais cruel de Predadores. O filme resgata a tensão do original e introduz subtipos dos Yautja, inclusive Predadores geneticamente modificados e em conflito entre si.
É um passo importante: a ideia de que existem clãs rivais, com práticas e filosofias distintas, amplia o escopo. Mas o filme sofre com ritmo irregular e personagens sem carisma (com exceção de Laurence Fishburne, como o “sobrevivente enlouquecido”).
Já O Predador (2018), dirigido por Shane Black (que atuou no filme de 1987), tenta trazer humor e uma pegada blockbuster. Mas o excesso de subtramas confunde mais do que encanta. O filme bagunça a mitologia, ignora o código de honra dos Yautja e termina com uma “armadura predadora” digna de videogame.
O renascimento com propósito em Predador: A Caçada (2022)
Depois de tantos tropeços, Dan Trachtenberg devolve à franquia o que ela nunca deveria ter perdido: simplicidade, tensão e elegância narrativa. Prey, ambientado em 1719 nas Grandes Planícies americanas, apresenta Naru, uma jovem comanche que quer provar sua capacidade como caçadora.
O filme retorna às origens do clássico embate um contra um, mas dessa vez com uma nova perspectiva: temos um Predador primitivo, equipado com uma tecnologia anterior à vista nos filmes anteriores, e uma protagonista que, longe de ser uma soldado, se destaca por sua inteligência e capacidade de observação. O confronto entre os dois vai além da sobrevivência, é uma metáfora poderosa que coloca frente a frente colonialismo e resistência, tecnologia e tradição, força bruta e estratégia afiada.
Prey foi aclamado por crítica e público e por um motivo: ele entende que o terror do Predador está na presença silenciosa, na construção de tensão e na ideia de que a caça é tanto externa quanto interna.
A reviravolta conceitual presente em Predador - Assassino de Assassinos (2024)
Com Assassino de Assassinos, a franquia ganha seu primeiro filme animado e não é qualquer animação. Esteticamente inspirado por graphic novels mais maduras, o longa entrega três segmentos distintos, todos protagonizados por guerreiros históricos em confrontos brutais com Predadores.
À primeira vista, parece uma antologia. Mas o último ato revela a proposta maior: os humanos sobreviventes foram preservados criogenicamente por um clã de Predadores. Eles não foram mortos, mas sim coletados. Tidos como "Assassinos de Assassinos", dignos de estar em um armazém intergaláctico, entre os mais perigosos já enfrentados.
Isso transforma o Predador de um simples caçador ritualístico em algo mais próximo de um curador bélico. Não basta vencer, é preciso guardar, observar, reverenciar ou, quem sabe, aprender com eles.
O conceito de “troféu” passa de um crânio ensanguentado para um corpo preservado. É quase uma museologia da violência.
Da selva à evolução da franquia
Com Assassino de Assassinos, a franquia Predador entra numa nova era: mais simbólica, mais narrativa, mais ousada. Ao olhar para trás, percebemos que cada filme, com seus altos, baixos e até crossovers improváveis, sempre tentou responder, à sua maneira, uma mesma pergunta: “O que significa ser digno de ser caçado?”
Essa evolução mostra que a franquia deixou de ser apenas sobre “quem vence o confronto”. Agora, também importa por que alguém merece estar nesse jogo. Para uma saga que nasceu nos anos 80 com músculos, suor e tiroteio na selva, essa é uma guinada ousada e muito bem-vinda.
E a expansão do universo não para por aí. O recém-anunciado Predador: Terras Selvagens é a próxima aposta para levar a franquia a novos territórios. O filme se passa no futuro, em um planeta remoto, onde um jovem Predador da raça Yautja, excluído de seu próprio clã, se alia a uma andróide da corporação Weyland-Yutani chamada Thia, interpretada por Elle Fanning. Juntos, eles embarcam numa missão quase suicida para caçar uma criatura lendária considerada impossível de matar.
O elenco também traz Dimitrius Schuster-Koloamatangi no papel do Predador protagonista, sendo um marco para a franquia ao humanizar ainda mais essas criaturas. E para quem gosta de teorias e conexões, vale destacar: Thia exibe em seus olhos a marca da Weyland-Yutani, a mesma empresa que rege os bastidores da saga Alien. A referência explícita reacende as especulações sobre um novo crossover no estilo Alien vs. Predador, embora nada tenha sido oficialmente confirmado até o momento.
Com estreia marcada para 7 de novembro de 2025, Predador: Terras Selvagens promete expandir ainda mais esse universo de caçadas, códigos de honra e confrontos que desafiam a própria natureza da sobrevivência. Se antes a franquia perguntava “quem vai sobreviver?”, agora ela nos faz pensar: quem merece ser lembrado?













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