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Crítica | The Last of Us - 2ª Temporada, 1º Episódio

 

A segunda temporada de The Last of Us estreia com o episódio “Future Days”, título que carrega um significado emocional profundo para quem jogou Part II. A música do Pearl Jam, que Joel canta para Ellie no jogo, representa o laço íntimo entre eles e a dor da distância que cresce entre pai e filha de coração.

Apesar da escolha da série de não trazer a cena (fazendo sentido dentro da cronologia, já que a música foi lançada em 2013, após o colapso do mundo na série em 2003), a ausência ainda deixa um vazio. Não que precisemos de uma canção para entender o vínculo dos dois, mas esse detalhe, mesmo com outra música, teria dado aquele “quentinho” no coração que os fãs conhecem tão bem.

Diferente da estrutura fragmentada do jogo, o episódio adota uma narrativa linear. Ao invés de iniciar com o peso do que Joel fez no Hospital, começamos já cinco anos no futuro, com Ellie aos 19 anos, visivelmente distante de Joel, e Joel sentindo esse afastamento com uma dor silenciosa. É um contraste poderoso, que aponta para o abismo emocional que será explorado na temporada.

Outro ponto que merece destaque é a introdução precoce de Abby e seu grupo. No jogo, isso acontece muito mais adiante, o que causou um impacto enorme nos jogadores. Mas na adaptação televisiva, a escolha faz sentido. O segredo sobre Abby dificilmente se manteria tendo em vista que a internet já revelou tudo. O episódio constrói com sensibilidade o luto daquele grupo, vítimas indiretas das escolhas de Joel, ao mesmo tempo que resgata a beleza da cena da girafa, agora como uma lembrança da conexão entre Joel e Ellie e uma pitada de esperança em meio ao caos.

Craig Mazin e Neil Druckmann optam por mostrar desde o início que a violência tem consequências, que ninguém sai ileso. Afinal, a grande pergunta que ecoa no jogo e agora na série é: até onde você vai por justiça? E o que é justiça, quando cada personagem tem sua própria dor? Vilões e heróis são posições relativas e esse é o grande trunfo da franquia.

Mesmo com mudanças estruturais, o episódio honra suas origens com referências cuidadosas: o mercado com a famosa tabela de “funcionário do mês” e o cameo de Gustavo Santaolalla reforçam o compromisso com os fãs. A introdução de elementos novos, como a ameaça crescente do fungo em Jackson e a proposta de mais tensão com hordas e infectados, traz o frescor necessário para a transposição do jogo para a linguagem da série.

No campo das atuações, Pedro Pascal continua impecável, especialmente nos silêncios, onde transmite dor, culpa e amor com o olhar. Bella Ramsey constrói uma Ellie mais irritadiça e imatura, o que pode incomodar a princípio, mas é coerente com uma adolescência interrompida por traumas e pode gerar um impacto emocional ainda maior nos próximos episódios. Kaitlyn Dever entrega uma Abby dilacerada, ainda que o melhor de sua performance esteja por vir. Já Isabela Merced rouba a cena como Dina, com carisma e química imediata com Bella.

Os detalhes importam, e a série sabe disso. Do “modo escuta” ao uso estratégico da faca, garrafas e ataques furtivos, cada referência à jogabilidade é um presente para os fãs. A aparição do espreitador, um dos infectados mais assustadores e inteligentes do jogo, é a cereja do bolo.

"Future Days" estabelece uma base sólida para a temporada, equilibrando nostalgia e inovação, emoção e tensão. A série continua a explorar temas profundos e a desafiar os espectadores a refletirem sobre moralidade, justiça e empatia em um mundo pós-apocalíptico. Com atuações impactantes e uma narrativa envolvente, The Last of Us reafirma seu lugar como uma das produções mais notáveis da televisão contemporânea.​

Nota: 9/10

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