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Crítica | O Brutalista

 Entre concreto, sonhos e o peso do passado.

Há filmes que não apenas contam uma história, mas esculpem emoções no espectador, moldando cada cena como um edifício meticulosamente planejado. O Brutalista é um desses filmes. Em uma narrativa que se estende por quase três décadas, acompanhamos a trajetória do arquiteto húngaro László Toth (Adrien Brody) e sua esposa Erzsébet (Felicity Jones) em sua busca por um novo começo nos Estados Unidos após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Mas o que começa como um sonho de reconstrução logo se transforma em um embate entre ambição, moralidade e o peso de um passado que nunca se dissipa completamente.

Dirigido com uma precisão quase cirúrgica, O Brutalista apresenta uma aula de narrativa cinematográfica, onde cada plano carrega significados ocultos e cada silêncio ecoa mais alto do que qualquer diálogo expositivo. A maneira como a câmera acompanha os personagens, especialmente László, reflete não apenas sua trajetória física, mas também sua degradação emocional ao longo dos anos. A escolha pelo formato 70mm e pelo uso de câmeras VistaVision não é meramente estética: ela reforça o caráter épico da obra ao mesmo tempo em que imprime uma sensação claustrofóbica, um paradoxo visual que intensifica o dilema central do filme.

O título do filme não é apenas uma referência ao estilo arquitetônico, mas sim um espelho da própria existência do protagonista. A estética brutalista, marcada por estruturas monumentais e imponentes, reflete não apenas as ambições de László, mas também suas cicatrizes e seu desejo de deixar uma marca indelével no mundo. Cada prédio projetado por ele carrega uma dualidade – um testemunho de sua genialidade e um monumento à sua dor. Esse jogo de significados transcende a arquitetura e ressoa na própria estrutura narrativa do filme, que se ergue como uma construção cinematográfica sólida, mas permeada por rachaduras emocionais.

Dentre os muitos méritos do roteiro, destaca-se sua capacidade de dizer muito sem precisar verbalizar tudo. Os personagens não são apresentados por meio de diálogos expositivos, mas sim por gestos, olhares e pelo peso do tempo sobre eles. Adrien Brody entrega uma atuação magistral, explorando cada nuance de um homem dividido entre a gratidão e a indignação, entre a busca pela grandeza e o temor de que tudo seja apenas uma ilusão. Felicity Jones, por sua vez, brilha em sua sutileza, sendo a âncora emocional da narrativa e transmitindo, sem palavras, o fardo de ser espectadora e participante do colapso interno de seu marido.

Se há um elemento que permeia toda a obra, é a desconstrução do chamado "sonho americano". A chegada de László aos Estados Unidos é filmada de forma grandiosa, mas com um plano invertido que imediatamente sugere sua desorientação. O país que deveria ser uma terra de oportunidades rapidamente se revela um campo de batalha silencioso, onde concessões morais são feitas em nome do progresso. A relação entre László e o industrial Harrison Van Buren (Guy Pearce) ilustra essa dinâmica de poder, onde o patrocínio se confunde com dominação e o sucesso vem sempre com um preço.

A estética do filme transborda melancolia. A paleta de cores fria e a iluminação dramática acentuam o contraste entre esperança e desilusão. A trilha sonora, delicada e inquietante, pontua os momentos de maior tensão com uma precisão assombrosa, reforçando a sensação de que o passado nunca é verdadeiramente deixado para trás. Cada escolha artística parece convergir para um único propósito: transmitir a angústia de um homem que constrói para fugir, mas cujo próprio trabalho o mantém preso.

O Brutalista não é apenas um filme, é uma experiência cinematográfica. Sua construção narrativa sólida, suas atuações impecáveis e sua estética minuciosamente planejada fazem dele um dos filmes mais impactantes dos últimos tempos. Ao final, não apenas testemunhamos a jornada de um arquiteto em busca de seu legado, mas também nos deparamos com as sombras do passado que ecoam em cada parede que ele ergue. Um filme que, assim como a arquitetura brutalista, não busca agradar a todos, mas que, sem dúvida, permanecerá gravado na memória daqueles que se permitem ser impactados por sua grandiosidade.

Nota: 9/10

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