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Crítica | Lobisomem (2025)

Priorizar o conhecimento popular evitaria muitos perrengues…

Quando pensamos em filmes de lobisomem, a imagem que surge é de ação frenética, sustos viscerais e transformações grotescas. Lobisomem, no entanto, subverte as expectativas ao colocar no centro da narrativa um drama familiar repleto de traumas, onde o horror sobrenatural serve como pano de fundo para um estudo sobre medo, perda e relações quebradas.

A premissa do filme é simples: Blake e sua família se refugiam em uma fazenda após serem atacados por uma criatura invisível. Mas, conforme a noite avança, o verdadeiro terror não está apenas do lado de fora. O confinamento da família não é apenas físico, mas emocional. A criatura que ronda a fazenda funciona como uma metáfora para os monstros internos que cada personagem carrega. E é nesse aspecto que o filme encontra um pouco de sua força.

A direção opta por um ritmo que privilegia a tensão crescente. O cenário único da fazenda é explorado com competência, criando uma atmosfera claustrofóbica que envolve o espectador. As paredes apertadas do lar-refúgio ecoam a sensação de que não há escapatória, nem dos perigos externos, nem dos conflitos internos. O isolamento funciona bem para criar suspense, mas em certos momentos, a repetição do espaço e a falta de variação de cenários diminuem o impacto da narrativa, tornando o filme arrastado.

O ponto alto do filme está em uma cena particularmente intensa, em que somos imersos no conflito interno e físico de um dos personagens. A direção aposta em planos fechados e efeitos práticos bem executados para transmitir um momento de tensão visceral, fazendo o espectador quase sentir na pele o que está acontecendo. É uma amostra poderosa do que o filme poderia alcançar ao explorar mais profundamente o terror psicológico e corporal.

Ainda assim, Lobisomem não consegue equilibrar completamente suas ambições. A narrativa parece hesitar entre ser um terror direto ou um drama reflexivo. Essa indecisão é evidente nos personagens, que muitas vezes parecem passivos, aceitando o que acontece ao seu redor em vez de agir de maneira ativa para entender ou enfrentar a situação. Há uma ausência de malícia ou curiosidade, o que enfraquece a identificação com a família.

Apesar disso, o roteiro nos brinda com diálogos pontuais que revelam a essência do filme. A frase “Às vezes nos preocupamos tanto em não traumatizar nossos filhos que viramos aquilo que os traumatiza” é um exemplo perfeito. Esse momento encapsula a verdadeira mensagem do longa: não se trata apenas de sobrevivência, mas de como lidamos com os traumas que herdamos e transmitimos. A criatura, então, se torna secundária, e o foco passa a ser a dinâmica disfuncional da família e a luta para não repetir os erros do passado.

Em termos técnicos, o filme é eficiente, mas não ousa. Os efeitos práticos são competentes, mas limitados, o que reflete uma produção que parece consciente de suas restrições. A trilha sonora e o design de som merecem destaque, ajudando a construir uma atmosfera opressiva e a amplificar os momentos de tensão.

Outro ponto que merece menção é o timing de lançamento: estrear na primeira lua cheia do ano é um toque inteligente que adiciona uma camada extra de imersão. Porém, essa escolha promocional talvez seja mais marcante do que a experiência geral do filme, que, embora sólido, carece de elementos que o tornam inesquecível.

No final, Lobisomem é um filme que surpreende por ser melhor do que as expectativas iniciais poderiam sugerir, mas ainda fica aquém do que poderia alcançar. É um thriller competente, com momentos de tensão genuína, mas que tropeça ao hesitar entre explorar mais profundamente seus elementos de terror ou drama. 

Para quem busca um terror mais atmosférico e reflexivo, o filme oferece algo de valor. Mas para aqueles que esperam uivos de inovação, ele pode não causar tanto impacto.

Nota: 5/10

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