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Crítica | Kasa Branca

 Um belo retrato de um Brasil real, mas cheio de sonhos e dignidade.

Em “Kasa Branca”, Luciano Vidigal, estreando como diretor solo, nos entrega uma obra que, mais do que narrar a luta cotidiana de um jovem da periferia, se torna uma reflexão pungente sobre a vida, a morte e os laços familiares. 

O filme conta a história de um adolescente que tenta com todos os meios ao seu alcance proporcionar os últimos dias de dignidade e conforto para sua avó, que sofre com Alzheimer. Em uma sociedade marcada pela desigualdade, onde as condições de saúde e o sistema de apoio são precários, essa luta se transforma não apenas em um ato de carinho, mas em um grito silencioso de resistência.

O que se destaca imediatamente em "Kasa Branca" é sua capacidade de misturar o sonho com a dura realidade. Enquanto o protagonista tenta realizar os desejos de sua avó, Vidigal constrói uma narrativa que não escapa das dificuldades enfrentadas por famílias de baixa renda, mas que também não perde a esperança no poder do afeto. Essa dualidade é fundamental para o tom do filme: ele não oferece respostas fáceis ou finais redondos, mas nos convida a enxergar a beleza da vida mesmo nas suas circunstâncias mais difíceis.

A cinematografia de "Kasa Branca" é um dos maiores acertos do filme. As cores vibrantes que transmitem o calor e a vida da periferia do Rio de Janeiro contrastam com as sombras que rondam as condições de vida precárias e a doença que aflige a avó. 

Cada plano parece cuidadosamente pensado para refletir o estado emocional dos personagens, onde o visual se torna um reflexo do interior das figuras em cena. O subúrbio não é apresentado como um local sombrio ou sem esperança, ao contrário, é mostrado em toda a sua complexidade, com beleza e humanidade, sem estigmatizar nem romantizar.

No centro de tudo, a relação entre o neto e a avó se torna o eixo emocional do filme, e é impossível não se deixar levar pela ternura e pela sinceridade dessa conexão. O cuidado do jovem com a avó, a busca incessante por um conforto que a realidade não proporciona, é dolorosamente bela. A ausência de recursos, o peso da doença e a falta de apoio do Estado criam um cenário onde os sentimentos se intensificam e tornam as cenas ainda mais comoventes. A atuação de Big Jaum e Teca Pereira, que interpretam, respectivamente, o neto e a avó, é impecável. Ambos transmitem uma química única, um afeto silencioso, mas profundo, que permeia cada gesto e palavra trocada.

O filme também não ignora o contexto social mais amplo e os desafios estruturais enfrentados pelos personagens. As dificuldades financeiras são uma constante, e as implicações disso se refletem em todos os aspectos da vida do protagonista, desde as relações familiares até o acesso ao cuidado de saúde. 

No entanto, o filme não se limita a apresentar esses problemas de forma passiva; ele os usa para questionar e desafiar a realidade imposta por um sistema desigual. "Kasa Branca" nos faz refletir sobre o que significa viver com dignidade em uma sociedade que muitas vezes parece não enxergar os mais vulneráveis.

A presença do filme nos festivais e suas várias premiações, como o Prêmio de Melhor Direção no Festival do Rio e o Prêmio João Carlos Sampaio, são merecidas, e apenas confirmam o que o público já percebeu: "Kasa Branca" é uma obra-prima que precisa ser vista, discutida e celebrada. 

O filme toca em questões universais como o amor incondicional, a perda, a luta por dignidade, enquanto mantém uma visão crua e honesta sobre as dificuldades sociais. É um filme que não pede desculpas por sua emoção e que não teme expor as falhas de um sistema que falha com seus cidadãos.

O talento de Luciano Vidigal, que já se destacou em trabalhos anteriores como “5x Favela: Agora por Nós Mesmos” e o documentário “Cidade de Deus: 10 Anos Depois”, é agora evidenciado em sua visão solo. Ele constrói um filme que, apesar de se passar em um contexto específico da periferia carioca, fala a todos que acreditam no poder da resistência, da família e do afeto.

Kasa Branca” é mais do que um filme, mas uma lição de vida, um lembrete de que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, a humanidade se encontra nas relações mais simples, como as entre avós e netos. Com sua direção sensível e um elenco impecável, o filme nos ensina a beleza que existe nas adversidades e o poder do amor para enfrentar as maiores batalhas.

Nota: 8/10

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