Longa traz uma protagonista perdida em sua própria história com direito a desrespeito à comunidade Trans e à cultura mexicana.
Emilia Perez chega às telas com uma premissa interessante: um líder de cartel que decide abandonar o crime para se tornar a mulher que sempre sonhou ser. Contudo, o que poderia ser uma abordagem inovadora e sensível de questões sociais acaba se perdendo em estereótipos, escolhas narrativas confusas e uma execução desastrosa.
Como um filme musical, Emilia Perez falha em cumprir a premissa básica do gênero: integrar suas músicas de forma orgânica à narrativa. As canções, em vez de impulsionarem a história, soam forçadas, sem brilho ou propósito. A sensação é de que foram colocadas de última hora, sem cuidado e com um gosto duvidoso. Para um gênero que depende tanto da qualidade musical, essa falha compromete o ritmo e o impacto emocional do filme.
A estrutura do roteiro também deixa a desejar. A história se desenvolve em arcos que mais parecem blocos isolados, com início, meio e fim abruptos, sem nenhuma sutileza ou ligação fluida. É como assistir a episódios desconexos, em que uma trama mal termina e outra começa. Essa falta de coesão prejudica a imersão e tira a força do desenvolvimento dos personagens.
O maior absurdo de Emilia Perez é justamente a invisibilidade da personagem que dá nome ao filme. Emilia é colocada em segundo plano, enquanto Zoe Saldaña rouba a cena como Rita, a advogada que a auxilia. Essa escolha não apenas desvaloriza Emilia, mas também subtrai a profundidade que a narrativa poderia explorar ao abordar sua jornada como mulher trans.
Talvez o ponto mais problemático do filme seja a forma rasa e estereotipada com que aborda temas importantes como a transição de gênero e a cultura mexicana. Emilia Perez é apresentada quase exclusivamente sob o prisma de sua cirurgia de redesignação sexual, como se essa fosse a única dimensão de sua identidade. O filme ignora a complexidade emocional e social de sua jornada, reduzindo-a a um estereótipo que reforça visões simplistas e ofensivas sobre pessoas trans.
O mesmo vale para a representação da cultura mexicana, que parece mais um apanhado de clichês eurocêntricos do que um retrato autêntico. É evidente que não houve esforço por parte do diretor em entender ou respeitar a riqueza da cultura que ele tenta retratar. Em um momento político delicado para os imigrantes e para a comunidade mexicana, especialmente nos EUA, essa abordagem desleixada é inaceitável.
Apesar de marcar a primeira indicação de uma mulher trans na categoria de Melhor Atriz no Oscar®, Emilia Perez não faz jus à importância histórica desse momento. O longa falha em oferecer uma representação digna e tem como consequência a rejeição pela própria comunidade trans. Além disso, o desrespeito à cultura mexicana só reforça a visão preconceituosa e eurocêntrica de Hollywood, que frequentemente ignora a voz das culturas que pretende retratar.
Emilia Perez é um filme que prometia ser revolucionário, mas entrega um espetáculo superficial, estereotipado e, em muitos momentos, constrangedor. Com um roteiro desleixado, músicas de péssima qualidade e uma abordagem irresponsável de temas tão delicados, o filme se torna uma grande oportunidade perdida. Apesar das boas atuações de Zoe Saldaña e Karla Sofia Gascón, elas não conseguem salvar o longa de sua narrativa vazia e ofensiva.
Emilia Perez não é apenas decepcionante, mas um alerta para a importância de tratar temas sociais com respeito, sensibilidade e profundidade.
Nota: 2/10

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